terça-feira, 16 de novembro de 2010
Mas não caia chuva alguma. Ele apenas se perdia em ideias, projeções, futuros, um sem-fim de preocupações. A literatura era uma distância que pairava ao seu redor, mas era preciso uma força absoluta para alcançá-la. Fez-se sóbrio como o tempo, que mal percebia-o reciprocamente, vestiu-se de cinza, sapatos bem lustrados, era seu uniforme, fálico, grande homem fálico, tinha o saco do tamanho do mundo, e todo o mundo era seu saco, trazia-o cheio e pesado. A cama o viu despertar, roncando como um carro, e apressado como uma empresa que se movia, sempre a frente, preciso. Abriu o jornal, isotonico, compartilhou suas expectativas. Vociferou alto no café da manhã e discorreu sobre o mercado tailandês, algo sobre a china que não entendi porque era em mandarin, as cotas turísticas da oceania, a política externa da europa. Saiu pontualmente e foi de transporte público (porque eu quero que ele vá de transporte público). Lá, o cotidiano maquinal, operacional. Cinematográfico!, penso: pessoas andavam de monociclo dentro dos cômodos que eram peças de um quebra-cabeças que encaixavam-se perfeitamente, num perverso encaixar que domina a vida de vez em quando, e começou a comprar a comprar, a comprar tanto que foi inchando, inchando inchando, inchando, cresceu e foi ganhando ele a forma da peça de quebra-cabeças que era o seu cômodo, entalado nas curvas, até que foi comprado por ele mesmo como artefato decorativo para sua sala de estar, ao lado do tapete persa e do idiossincrático jogo de peças russas.
Caiu um prego no chão de taco, e está escuro. Está escuro e nós não temos luzes para enxergar inexistência.
Refiz a queda mil vezes, e outras mil me fiz o prego para tentar descobrir onde se esconde, safo como uma criança levada, mas por ser levada, não tem culpa nunca. Fiz novos caminhos para chegar nos lugares de sempre, aprendi a olhar de outro ângulo os mesmos rostos, aprendi a mudar o rumo, a mudar de lado na paisagem, a mudar de altura nos mapas, de ponto de vista nas escadarias, conheci novas pessoas (nenhuma delas sabia do paradeiro, nem mesmo delas), li livros que não gosto, estudei a metafísica do espaço mas o prego, aquele prego, eu nunca mais encontrei.
Refiz a queda mil vezes, e outras mil me fiz o prego para tentar descobrir onde se esconde, safo como uma criança levada, mas por ser levada, não tem culpa nunca. Fiz novos caminhos para chegar nos lugares de sempre, aprendi a olhar de outro ângulo os mesmos rostos, aprendi a mudar o rumo, a mudar de lado na paisagem, a mudar de altura nos mapas, de ponto de vista nas escadarias, conheci novas pessoas (nenhuma delas sabia do paradeiro, nem mesmo delas), li livros que não gosto, estudei a metafísica do espaço mas o prego, aquele prego, eu nunca mais encontrei.
O tempo fechou-se depressa e saiu correndo alto e grande, quase desengonçado, quase elegante, escureceu a conversa e fez-se numa imagem absurdamente monótona, de um cinza palpável, palatável até, choroso como uma flauta, fez-se quadro e tinta para um pintor e choveu em palavras para mim, daqui a uns quinze minutos mais ou menos, num prévio silêncio entrecortado como a literatura entrecorta os meus vinte-e-um anos e me rouba o nome e a idade. Converso com a chuva de pernas longas, alta, quilométrica se fôssemos usar a escala humana tão pequenina - um dia vi um mímico que corria devagar bater numa parede de vidro de verdade que ele pensou ser de mentira e acho que por isso não se machucou - senão mesquinha, e ela me devolve escuridão e palavras, palavras em todas as direções que respingam por debaixo do vão de espaço do guarda-chuva que é o próprio tempo, umas me sussuram doçuras, outras me assustam, gritam comigo e me dão medo, outras ainda adentram minha pele tão suavemente que são microorgasmos do tantra, e outras são religiosas, recatadas. Na escuridão sou silêncio e meditação, uma meditação que é uma dança com o universo que sou, uma dança sem firmeza nenhuma, corpo de cobra, de um verde de mata molhada e feliz, escorregadio, lavado de cheiro-terra-molhada, que esfregam sua pele gelada na minha dando nó no seu corpo de mola, de todo jeito, me enojam às vezes, e outras tantas outras acho-as maravilhas como guirlandas, e tudo é água, cobras e barro, dançando sem firmeza humana
Os passos escorregadios
chovem também e se
esquecem
jun
to
c
om
a
c
hu
v
a
Passaram-se quinze, vinte, duas horas e a chuva não caiu senão no pensamento e no tempo infinito de uma respiração. << uma respiração trêmula que me enche de gozo, bafo quente, profunda que me conhece por dentro, toca o meu dentro, e me faz fora, me faz do avesso e avesso de novo para que possa ser eu novamente, efêmero e belo como a fumaça translúcida do que se desfaz >> Ela corre longe, corre e brinca e salta e salta, e gargalha, gargalha muito, brincalhona no seu acima, que para além de sombras e oxigênio, é luz, é estrela e não há pra quê entender o praquê de existirmos, me penduro nas árvores com as gargalhadas da chuva e com os loucos, e sou eu louco e não me canso de me conhecer, e sou a lua e sou espelho
Saltos no telhado
Saltos, slatos, sltaos, sltoas, sltosa,
Saltos como num balé onírico na fluidez da madrugada
Numa erudição do movimento
Saltos, saltos, saltos,
Conformes consigo, com uma conguência eucléica de noite, o remorso de um salto, ainda um salto, como um toc no telhado, como uma maçaneta da água estática no céu moderno, exaltação do corpo movimento uma expressão de arte em ser, de ser em, arte inspiração de uma expressividade tônica, sonhando com um ronco de Ciello no compasso rítmico que é a pulsação do sangue do corpo-sólido-imagem, nos saltos do balé do telhado,
Dança louca e barulhenta, como murmúrios, rumores de um tango coreografado em beijo no escuro.
Profunda pele que é como um toque em um Piazzola dançante, o tango menino, preto e branco, como um xadrez, lúdicos cavalos! Na esfolação do tango, na evolução do tango, Tango!
Arranha como uma sonoridade de cio, um ócio opioso nos saltos do tango do telhado, erótico, como uma sugestão às luzes do teatro rejeição da mente no brotamento do palco, só o golpe egoísta dos saltos, do balé dançado pelas gotas de chuva que caem da madrugada
E sendo espelho sou o mundo.
***
Os passos escorregadios
chovem também e se
esquecem
jun
to
c
om
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c
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Passaram-se quinze, vinte, duas horas e a chuva não caiu senão no pensamento e no tempo infinito de uma respiração. << uma respiração trêmula que me enche de gozo, bafo quente, profunda que me conhece por dentro, toca o meu dentro, e me faz fora, me faz do avesso e avesso de novo para que possa ser eu novamente, efêmero e belo como a fumaça translúcida do que se desfaz >> Ela corre longe, corre e brinca e salta e salta, e gargalha, gargalha muito, brincalhona no seu acima, que para além de sombras e oxigênio, é luz, é estrela e não há pra quê entender o praquê de existirmos, me penduro nas árvores com as gargalhadas da chuva e com os loucos, e sou eu louco e não me canso de me conhecer, e sou a lua e sou espelho
Saltos no telhado
Saltos, slatos, sltaos, sltoas, sltosa,
Saltos como num balé onírico na fluidez da madrugada
Numa erudição do movimento
Saltos, saltos, saltos,
Conformes consigo, com uma conguência eucléica de noite, o remorso de um salto, ainda um salto, como um toc no telhado, como uma maçaneta da água estática no céu moderno, exaltação do corpo movimento uma expressão de arte em ser, de ser em, arte inspiração de uma expressividade tônica, sonhando com um ronco de Ciello no compasso rítmico que é a pulsação do sangue do corpo-sólido-imagem, nos saltos do balé do telhado,
Dança louca e barulhenta, como murmúrios, rumores de um tango coreografado em beijo no escuro.
Profunda pele que é como um toque em um Piazzola dançante, o tango menino, preto e branco, como um xadrez, lúdicos cavalos! Na esfolação do tango, na evolução do tango, Tango!
Arranha como uma sonoridade de cio, um ócio opioso nos saltos do tango do telhado, erótico, como uma sugestão às luzes do teatro rejeição da mente no brotamento do palco, só o golpe egoísta dos saltos, do balé dançado pelas gotas de chuva que caem da madrugada
E sendo espelho sou o mundo.
***
Quando voltei pra casa a fruteira estava cheia de pêssegos, muitos muitos pêssegos que transbordavam líquidos, suco, pele, macioio, o macio dos pêssegos transbordava da fruteira, e mergulhei com meus dedos finos de criança ainda, mas quase homem, cada dia mais homem, e refleti comigo que os melhores pêssegos são aqueles que comemos com o pensamento, e devorei tantos tantos pêssegos que fiquei cansado de pensar, e meus dedos foram crescendo e fizeram de mim homem.
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